Gaia

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Por que razão decidiu Gaia reagir? Esta é uma pergunta que perpassa todo o espetáculo Gaia, onde mulheres, homens e animais refletem sobre a existência humana, numa possibilidade de estabelecer o último diálogo entre o Homem e a Natureza. Gaia é um espetáculo sobre o desaparecimento e a memória: a extinção em massa e a memória reservada aos desaparecidos. Partindo dos pressupostos ecológicos contemporâneos e em particular da Hipótese de Gaia do ecologista inglês James Lovelock, Gaia acaba por ser uma galeria da história da presença e legado humanos, ao mesmo tempo que desvela as transformações que o planeta sofreu com o toque humano. Ao Homem não basta usar, é preciso possuir para destruir ou explorar como momento identitário da sua própria natureza. A grande dificuldade do Homem é a coexistência com o(s) outro(s), um egoísmo paternalista ou patriótico que o leva a pensar apenas na sua “comunidade” como prioridade de sobrevivência. E a verdade é que a Humanidade está em processo de autoextinção.

A abordagem ao tema assume uma preponderância abstrata, quer na linguagem quer no movimento, onde performers são pessoas e animais ou onde os animais dialogam com a Humanidade que se extingue e que ao mesmo tempo, extingue a própria natureza. Gaia explora alguns dos campos onde a relação Homem-animal é mais relevante: linguagem, domínio, trabalho, entretenimento e transformação do animal em humano. A metamorfose é uma componente muito marcante nesta criação e a exploração da voz e do corpo como presença do outro é essencial para a aparição daquilo nunca abandonou o Homem: o instinto de ser primitivo. Tudo vem da Natureza, mesmo os sons que saem de uma guitarra em palco, não são mais que cantos de baleias ou zurros angustiantes.

Seria possível pensar este espectáculo como um alerta ecológico, porém, em última análise, Gaia é uma possibilidade muito concreta do futuro da Humanidade: a extinção total. Enquanto este espetáculo é preparado e apresentado, alguns habitats vão desaparecer para sempre, animais vão-se juntar aos já extintos, a Humanidade vai continuar a crescer desenfreadamente. O fim da Humanidade não virá da guerra, mas sim da ação mais natural do homem, da reprodução para a perpetuação da espécie.

Finalmente, quando daqui a milhões de anos novas espécies vivas fizerem explorações arqueológicas, o que encontrarão da nossa passagem pelo planeta Terra?

 

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fotografia e recolha de objeto por Ricardo Cabaça