Entre dois mundos

12 novembro 2017 | Convento São Pedro de Alcântara
Espetáculo inserido na 29º Temporada de Música de São Roque

Entre dois mundos propõe um diálogo filosófico durante um encontro fictício, algures no “atemporal” século XVIII, entre um índio sul-americano, educado pelos padres jesuítas nas Missões dos territórios em disputa pelas coroas espanhola e portuguesa e um jovem rei português. O índio viaja para Lisboa a fim de ser mostrado ao monarca como exótico exemplo da educação musical utilizada no processo catequizador e humanista promovido pela Ordem de Cristo, o índio surpreende ao demonstrar simplicidade e erudição, tendo a música como ponto de contacto entre a religião e as diferentes culturas e visões do mundo das personagens envolvidas. É a música que une os dois num consenso, é através da música que os idiomas se aproximam, é com a música que o rei e o indígena vivem aquele momento em que ninguém é superior em relação ao outro, um momento em que a selva e a cidade estão no mesmo espaço. A música apresentada, não condicionada a uma organização linear ou cronológica, refletirá o teor das discussões e servirá como ilustração sonora dos mundos que se descrevem e compartilham. Iniciar-se-á pelas raízes comuns do repertório levado pelos jesuítas nas suas Missões na América do Sul, com aquela que também se manteve importante na Capela Real de Lisboa, como a obra de Giovanni Pierluigi da Palestrina, compositor máximo da Contrarreforma em Roma.
Serão também apresentadas obras de compositores portugueses ligados aos jesuítas como os vilancicos portugueses dedicados a São Roque e São Francisco Xavier de Frei Miguel da Natividade – inéditos depositados nos arquivos de Évora, os quais cumpriam função doutrinária e evangelizante semelhante às transliterações de música europeia em língua indígena como Hanacjpachap cussicuinim em Quechua e Zoipaqui Sancta Maria em Guarani. Finalmente, com certa liberdade poética e cronológica, será proposto um paralelismo entre as obras da Capela Real portuguesa como as de António Teixeira, Carlos Seixas e Giovanni Giorgi, com as de compositores presentes nos arquivos musicais das Missões, como as de Giovanni Bassani, Roque Ceruti e Domenico Zipoli, este último radicado em Córdoba (atual norte da Argentina), de onde escrevia e enviava música para as demais Missões. Os músicos do rei ensaiam um concerto, os cantores aquecem a voz, o índio reconhece o repertório comum às duas realidades musicais assim como apresenta ao rei as suas próprias habilidades e conhecimentos. No final, aplaude-se a música pelo seu dom de aproximar culturas, de louvar a palavra e as ações divinas.
Texto do maestro Ricardo Bernades

 

Direção musical  | Ricardo Bernardes
Texto e encenação  | Ricardo Cabaça
Sopranos  | Sara Afonso e Susana Duarte
Altos  | Paulo Mestre, Arthur Filemos e António Lourenço Menezes
Tenores  | Carlos Monteiro e João Pedro Afonso
Baixos  | Tiago Daniel Mota, Pedro Morgado e Calebe Barros
Violinos  | Tera Shimizu e Stephen Bull
Viola  | Maria José Laginha
Violoncelo  | Raquel Reis
Baixo  | Marta Vicente
Contínuo  | Sérgio Silva
Teorba  | Rui Araújo
Oboé  | Luís Marques
Trompete barroco  | Hugo Santos
Atores  | Miguel Cunha e Victor Yovani
Produção executiva  | Carolina Caramelo

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